Um gigante em ´três continentes´

Símbolo do cancioneiro brega da década de 1970, Nelson Ned deixa um legado de sucesso internacional

 

A altura - 1,12m - era algo que o cantor Nelson Ned não tinha como esconder. Só o que restava era tirar partido dela, como o fez em 1969 na canção (de sua autoria) "Tamanho não é documento" ("pelo menos eu tenho sentimento / mas isso, isso é coisa que você não tem").

Naquele mesmo ano, o artista, nascido em Ubá, Minas Gerais, teve o primeiro estouro de sua carreira: "Tudo passará", música que vendeu 300 mil compactos e 170 mil LPs e que, graças a versões de Charles Aznavour e Henri Mancini, levou seu nome ao exterior.


Com 45 milhões de cópias de discos vendidos no mundo, shows realizados "em três continentes" (como gostava de dizer), Nelson foi o primeiro artista latino-americano a bater a barreira do milhão de discos nos Estados Unidos, onde encheu três vezes o mítico Carnegie Hall da bossa nova, em Nova York.
"O pequeno gigante da canção" (alcunha criada pelo ator Paulo Gracindo nos tempos em que o cantor ainda iniciava carreira), Nelson Ned conquistou multidões com canções aboleradas, cantadas a plenos pulmões, com uma intensidade em tudo oposta à MPB universitária.
E viveu uma vida bem parecida com a de suas canções, de títulos como "Não tenho culpa de ser triste", "Será, será" e "Se eu pudesse conversar com Deus". Na esteira do sucesso internacional vieram o vício por sexo, o consumo exagerado de cocaína, uma série de tragédias pessoais e a conversão à igreja evangélica.

"Eu tinha tudo para dar errado. Feio, baixinho e pobre. Mas Deus me levantou do pó. Literalmente: do pó da cocaína e do pó da terra. Eu sou um milagre",

disse ele em entrevista ao documentário sobre a música brega "Vou rifar meu coração" (2011), de Ana Rieper.

"Me deixei levar pela embriaguez do sucesso. Muita cocaína, muita champanhe Dom Pérignon, muita mulherada. Comprei muitos carros, tinha três Mercedes-Benz. Lavei a égua com xampu e creme rinse",

disse mais recentemente, em entrevista à TV.
Restrito, no Brasil, ao campo dos cantores "cafonas" (como Reginaldo Rossi, Odair José, Fernando Mendes e Agnaldo Timóteo), Nelson Ned passou boa parte dos anos 1970 fora do país. Voltou a lançar disco por aqui em 1982: o LP "Perdidamente apaixonado".
Naquela época, ressentia-se da falta de reconhecimento artístico em casa.

"O Brasil hoje está muito mais receptivo às músicas cantadas por Julio Iglesias, que faz exatamente o que eu, o Agnaldo Timóteo e outros fazíamos dez anos atrás",

observou ele, em entrevista ao Globo.

"Nós não mudamos o país, o país mudou. Havia uma repressão muito grande. Por causa disso, só se valorizava o protesto, e o cantor romântico não era aceito, sendo relegado a um plano menos significativo."

Pelas canções que fez, Nelson Ned foi um gigante da música brasileira. Suas músicas estão no imaginário coletivo nacional. Além disso, ele era extremamente inteligente.

"Na entrevista que fiz com ele para o meu livro, ele demonstrou uma lucidez e uma clareza que poucos tinham",

conta o jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo, autor do livro "Eu não sou cachorro, não", sobre a história da música brega no Brasil dos anos 1970.

"Nenhuma música, de protesto ou não, vai encher a panela do povo",

dizia Nelson Ned, que volta e meia se gabava de ter um fã muito querido entre os intelectuais brasileiros: o escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Marquez.

"Meu negócio era trabalhar para ajudar minha mãe e mandar dinheiro pra casa. O AI-5 pra mim era coisa de um universo muito distante. Eu não passava de um anãozinho grotesco."

Introduzido à cocaína em Miami, no começo dos anos 1980, o cantor disse algumas vezes ter conquistado amigos até mesmo entre os temidos cartéis das cidades colombianas de Cáli e Medellín.

"Eu era uma bala perdida",

resumia.
Em abril de 1988, em São Paulo, uma discussão com a mulher, Maria Aparecida de Oliveira, acabou com ele disparando (acidentalmente, alegou) um tiro no peito da companheira. Em 1993, Nelson achou conforto na religião e passou a dedicar-se a gravar repertório gospel, em português e espanhol. Três anos depois, suas histórias da vida foram compiladas no livro "O pequeno gigante da canção".
Nelson Ned D´Ávila Pinto morreu neste último domingo, dia 5, aos 66 anos de idade, horas depois de ter dado entrada, com um quadro grave de pneumonia, no Hospital Regional de Cotia, em São Paulo.
Em 2003, o cantor havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC), o que o levou a perder a visão do olho direito e a passar seus últimos dias numa cadeira de rodas. Celebrado no cinema ("Tudo passará" foi incluída na trilha de "O palhaço", de Selton Melo), Nelson deixou fãs como o rapper Emicida, que postou no Twitter:

"Descanse em paz, Nelson Ned. O hip-hop te eterniza nos samples!".

Show completo gravado nos Estados Unidos em 26 de maio de 1996.

Fonte: diariodonordeste.globo.com

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