Cantores que usam Auto-Tune

Hoje onipresente nos estúdios de gravação, o Auto-Tune é um programa que permite tornar afinada qualquer cantoria. Ele possibilita, assim, uma espécie de estelionato musical: gente incapaz de acertar uma nota pode, de repente, se apresentar como cantor. Mas não é para sair por aí queimando caixas de Auto-Tune. Os produtores musicais garantem que hoje, quem não usa nenhum tipo de correção vocal é exceção.

E isso não é necessariamente ruim. O programa pode, sim, ser um aliado da criatividade. A primeira coisa que se deve saber a respeito do Auto-Tune é que o software pode ser usado de dois jeitos. Inicialmente criado para corrigir pequenos defeitos na voz de um artista, como uma espécie de Photoshop sonoro, o programa passou a ser usado para distorcer e dar um revestimento robótico e metálico aos vocais, criando um efeito que é usado até hoje.

Uma das canções que mais ajudaram a popularizar esse uso da ferramenta foi Believe, lançada por Cher em 1998.

Na mesma época, reforçando a proposta, o duo eletrônico Daft Punk começou a fazer sucesso com músicas que utilizavam vocoder, outro instrumento que robotiza a voz.

Hoje, também se usa o Auto-Tune para produzir efeito cômico numa canção, mas a principal utilização do programa continua sendo estética.

O programa e o som metalizado que produz são marcas da geração 2000.

“O mais legal do Auto-Tune é justamente ser explorado ao máximo para criar aquele efeito de voz metalizada, como se você estivesse cantando através de um cano de PVC”

diz Pedro D’Eyrot, integrante do Bonde do Rolê, grupo que mistura funk e pop, e um dos produtores da banda Uó, que surgiu fazendo releituras bregas de músicas pop.

“Tem artista que, sem Auto-Tune, não teria carreira. O uso do software deveria vir discriminado na embalagem do CD”

afirma o produtor João Marcello Bôscoli, filho de uma das vozes mais célebres da história da música brasileira, a cantora Elis Regina. Outro ponto a ser esclarecido sobre o Auto-Tune é que, embora o programa, lançado no começo dos anos 1990 pela empresa americana Antares Technologies, tenha se tornado sinônimo de programa de afinação (assim como Bombril se tornou sinônimo de palha de aço), ele não é o único calibrador de voz, nem o mais usado hoje.

A maioria dos músicos e produtores consultados diz usar o Melodyne, desenvolvido pela alemã Celemony em 2001. Podemos definir a música pop e o Auto-Tune como um caso de amor, pois o que você vai ver a seguir são os cantores que já usaram o "Photoshop Sonoro" e não vivem mais sem eles.

 

Miley Cyrus - Party in the U.S.A.

Em um de seus primeiros hits como Miley Cyrus -- e não como a personagem Hannah Montana, da Disney -- a cantora tentava emular um timbre de voz que não era o seu, e deve ter dado um trabalho danado aos produtores, que tiveram de disfarçar as tamanhas correções de voz da moça com vários efeitos -- perceptíveis especialmente no refrão da música. Para entender melhor assista ao próximo vídeo, com Miley cantando a mesma música ao vivo, e compare.

Aqui, sem usar Auto-Tune, Miley mostra um alcance vocal bem mais limitado. Repare como ela muda o tom da voz para conseguir cantar a música, e ainda conta com duas backing vocals que a ajudam nas partes mais agudas.

 

Lady Gaga - Just Dance

Uma das piores consequências do uso repetido de Auto-Tune em estúdio é a dificuldade de reproduzir, ao vivo, a voz impressa no disco. É por essas e outras que tantas cantoras se apresentam com playback, hoje em dia. Algumas têm respostas justificáveis, como Beyoncé, que dança sem parar no palco. Não é o caso de Lady Gaga, que faz poucos movimentos bruscos e, mesmo assim, abusa do playback. Duvida? Assista ao próximo vídeo.

Aqui, em apresentação na Suécia, a cantora nem procura disfarçar que uma versão pré-gravada da música está rolando ao fundo. É claro que a voz dela não é robotizada assim naturalmente -- isso é playback.

 

Rihanna - We Found Love

A caribenha Rihanna é um exemplo de cantora que poderia dispensar o Auto-Tune, pois tem uma voz interessante. No entanto, ao optar por soar como grande parte do pop radiofônico característico dos dias de hoje, a cantora perde um pouco da originalidade. Pior: em We Found Love, soa quase metálica. Ao vivo (veja o próximo vídeo), é possível perceber que, embora também use um pouco de playback, canta por cima sem nenhum demérito.

Aqui, em performance na cerimônia de entrega do BRIT Awards deste ano, a voz natural de Rihanna, sem Auto-Tune, pode ser ouvida bem no comecinho do vídeo (até 0:25). A partir daí, entra o playback e a cantora passa a confiar demais no "truque", soltando menos a voz.

 

Beyoncé - 1+1

Beyoncé é das poucas que ainda sabem cantar. Se faz uso de algum tipo de recurso para melhorar a voz em gravações, o faz de maneira sutil. Nos shows, embora use playback nas músicas com coreografia mais pesada -- pular de um lado para o outro do palco consome o fôlego necessário para projetar a voz --, geralmente confia bastante no gogó. Ela pode (veja o próximo vídeo).

Conforme provou o maridão, o rapper Jay-Z, Beyoncé se garante ao vivo. Pode até mesmo prescindir do microfone. Em um vídeo publicado por ele na internet no ano passado, a cantora mostra que tem uma bela voz enquanto ensaia para participar do programa American Idol. Beyoncé solta a voz em seu camarim, acompanhada somente de uma tecladista e de algumas backing vocals, que entram no fim da canção.

 

Justin Bieber - Baby

Justin Bieber estava com dor de garganta e, como não gosta de cancelar shows, recorreu ao playback. Ao menos, essa é a nobre desculpa usada pela fã que postou este vídeo no YouTube. Mas não é bem verdade. O cantor emprega o playback em todos os seus shows -- como ficou claro durante a sua passagem pelo Brasil, no ano passado. E também usa bastante o Auto-Tune. O que, no caso de um menino que acaba de sair da puberdade, é compreensível. Dado que seu primeiro hit, Baby, estourou quando ele tinha 15 anos, é impossível para Bieber reproduzir hoje a voz usada na canção de três anos atrás (veja o próximo vídeo).

Neste vídeo, feito no fim do ano passado, Bieber muda o tom da música para adaptá-la à sua nova voz, pós-puberdade. O truque funciona, mas não para o refrão, quando ele tem de pedir a ajuda das fãs.

 

Ke$ha - Tik Tok
 

Ke$ha é o tipo de artista que, como diz o produtor João Marcello Bôscoli, não existiria se não fosse o Auto-Tune. Com o programa, a voz naturalmente estridente da cantora é transformada até ficar quase robótica. Para as pistas, funciona. O problema é quando Ke$ha decide cantar ao vivo (veja o próximo vídeo).

Fonte: veja.abril.com.br

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