O que é fibromialgia?

A fibromialgia é uma síndrome dolorosa não-inflamatória, caracterizada por dores musculares difusas, fadiga, distúrbios de sono, parestesias, edema subjetivo, distúrbios cognitivos e dor em pontos específicos sob pressão (pontos no corpo com sensibilidade aumentada ou tender-points).

Várias pesquisas indicam que anormalidades na recepção dos neurotransmissores são frequentes, em pacientes com fibromialgia. Essas alterações podem ser o resultado de stress prolongado grave.

Depressão maior e transtornos de ansiedade, especialmente transtorno de estresse pós-traumático, são comorbidades comuns. Dentre os vários prováveis responsáveis pela dor constante estão problemas no sistema dopaminérgico, no sistema serotoninérgico, no hormônio de crescimento, no funcionamento das mitocôndrias e/ou no sistema endócrino.

 

Dor no pescoço e nos ombros

Muitos pacientes com fibromialgia (FM) queixam-se de dores nos “nervos” do pescoço, e em muitos a maioria das dores da FM parece originar-se desta área.
Na verdade, os tais “nervos” são a parte principal de um músculo do pescoço e ombros, chamado trapézio. Este é um músculo bastante potente, que em pacientes com fibromialgia pode apresentar pontos de contração espontânea, chamados pontos-gatilho. Estes pontos são chamados assim por “engatilharem” uma dor sempre para a mesma localização, dependendo de onde está a contração muscular.
O trapézio é o músculo mais “mal-usado” do corpo, particularmente em indivíduos sedentários e com má-postura. A cabeça, quando está pendente, age como um peso de 15kg pressionando o trapézio para baixo. Quando a cabeça está alinhada com o pescoço, este peso é de somente 3 kg. Muitas pessoas mantêm uma postura com a cabeça para a frente por períodos grandes de tempo, no trabalho e nas tarefas de casa, submetendo o trapézio a um estresse crônico. Pessoas com fibromialgia são especialmente vulneráveis ao estresse mecânico crônico.

Estes passos são úteis para lidar com a dor no pescoço e ombros:

1) Evite inclinar-se para realizar um trabalho. Levante a superfície de trabalho ou abaixe a cadeira, para permitir que a cabeça e a coluna fiquem alinhadas (isto é, sem a cabeça estar curvada para a frente).
2) Evite deitar no chão para assistir TV ou ler na cama com o travesseiro embaixo da cabeça. Isto tensiona o trapézio e irrita o nervo occipital, o que pode causar dor de cabeça.
3) Use travesseiros com curvaturas especiais pra dormir – que permitam que a cabeça fique paralela ao colchão.
4) Pratique uma boa postura. Peça ao seu fisioterapeuta pra ensinar exercícios que fortaleçam os músculos do ombro e do pescoço.
5) Quando estiver dirigindo, pressione a cabeça contra o encosto de cabeça periodicamente, para ajudar o corpo a identificar a posição correta da cabeça.
6) Alongue os músculos do pescoço várias vezes ao dia – onde quer que esteja.
7) Arranje uma cadeira com encosto alto – isto dará melhor apoio para o pescoço e os ombros.
8) Se o seu trabalho envolve muito tempo ao telefone, considere o uso de fones de ouvido, que deixam o pescoço livre.
9) Fale com seu médico sobre injeções com anestésico nos pontos-gatilho.
10) Natação é um exercício útil para o alongamento do pescoço.
11) Use relaxantes musculares à noite para “soltar” os músculos durante o sono. Use analgésicos regularmente, não só quando a dor está insuportável.
12) Massagens são úteis, embora o efeito seja temporário
13) Use calor, como o chuveiro quente, para soltar os músculos
14) Aprenda exercícios de relaxamento – pergunte ao fisioterapeuta.
15) Conserve-se quente quando está frio – o ar frio faz contração muscular,causando maior dor.

 

Depressão e fibromialgia : qual a relação?

Por muito tempo pensou-se que a fibromialgia (FM) era uma doença psicossomática, isto é, que a dor muscular generalizada seria apenas uma maneira de um grande estresse mental se manifestar. Vários autores defendiam que o paciente com fibromialgia apresentava uma depressão “mascarada” - sem manifestações clínicas típicas.
Com a evolução do conhecimento científico cresceu a evidência de que a dor da fibromialgia é real, e não apenas uma manifestação de uma depressão “mascarada”. Mesmo assim, muitos médicos e pacientes ainda pensam desta maneira. Um fato que ajudou a aumentar a confusão foi o uso comum de antidepressivos para pacientes com fibromialgia, levando à melhora de alguns dos sintomas da síndrome.
Por outro lado, sintomas depressivos são comuns na fibromialgia e, muitas vezes, pioram muito a qualidade de vida do paciente. Na verdade, estudos mostraram que 50 a 60% dos pacientes com fibromialgia apresentam, apresentavam ou apresentarão depressão. Estes estudos apontam para dois fatos: a depressão é comum na fibromialgia, mas nem todos os pacientes com fibromialgia apresentam depressão.

Afinal, quem veio primeiro? A depressão ou a fibromialgia? Qual é o papel dos antidepressivos no tratamento da fibromialgia? Estes remédios são seguros? Vamos esclarecer estes pontos.

Toda a dor, além da sensação de que algo desagradável está acontecendo no corpo, traz uma resposta emocional na pessoa (desprazer). Numa síndrome de dor crônica como a fibromialgia esta resposta emocional tende a ser maior, mais persistente e mais difícil de tratar. Como num círculo vicioso, o estresse emocional aumenta a sensibilidade à dor, que aumenta a dor muscular, que aumenta a depressão, e assim por diante. De qualquer maneira, as evidências apontam para a dor como fator inicial e não para a depressão.

Porque antidepressivos são tão usados na fibromialgia?

Uma das medicações mais usadas é a amitriptilina, pois foi a primeira a ser testada na FM. Ela geralmente é usada numa dose que não trata a depressão – o foco é a melhora do sono. Para ter uma ação antidepressiva a dose tem que ser mais alta do que a habitual. O médico e o paciente decidirão juntos se um aumento da dose é necessário ou se uma medicação alternativa deverá ser usada.
Existem vários antidepressivos no mercado, cada um com seu perfil de ação (para pessoas que têm insônia, para pessoas que sentem muito sono, para quem come demais quando está nervoso, para quem perde o apetite). A escolha pelo médico deverá sempre ser individualizada para cada paciente.

Estes remédios são seguros?

Um ponto que causa grande confusão – antidepressivos NÃO causam dependência física.Como toda medicação, os antidepressivos possuem efeitos colaterais, e o seu uso deve sempre ser acompanhado por um médico. Eles são vendidos com receita especial para haver um maior controle (receita dupla carbonada), mas eles são bastante diferentes dos “calmantes”, que geralmente têm ação de diminuir a ansiedade, sem ação antidepressiva e podem causar dependência física (vendidos com receita azul).
É um erro não identificar e não tratar corretamente a depressão – é uma doença comum, tratável e curável. Porém, quando associada à fibromialgia, deve-se ter em mente que só o tratamento da depressão não aliviará totalmente os sintomas. Todos os passos do tratamento, como exercício e analgésicos, devem ser seguidos. Tratar só a depressão ou só a dor é fazer um tratamento incompleto.

 

Como lidar com as crises de fibromialgia

Pacientes com fibromialgia (FM) ocasionalmente experimentam “crises” da doença, isto é, momentos quando os sintomas da fibromialgia pioram. Os sintomas que pioram geralmente são a dor, as alterações do sono e a fadiga. Saber lidar com estas situações é uma habilidade importante de ser adquirida. Um primeiro passo é tentar identificar o que desencadeia as crises. Na maioria das vezes, o paciente consegue definir algum fato ou situação que levou a uma piora do quadro. Um dos fatores mais comuns é o exagero na atividade do dia-a-dia, principalmente afazeres domésticos. Fatores emocionais também são uma causa importante das crises. Alterações climáticas podem aumentar a percepção dolorosa. Em algumas mulheres, as crises são sempre em período pré-menstrual, demonstrando que causas hormonais também podem estar atuando.
Reconhecendo estes desencadeadores, o paciente com fibromialgia pode ganhar algum controle sobre as crises, evitando ou tomando medidas preventivas sobre estes fatores.

Embora a atividade física seja fundamental para pacientes com FM, o excesso de atividade corporal pode levar a uma piora de sintomas. O paciente com FM está descondicionado fisicamente, e o exagero numa atividade doméstica ou no exercício pode desencadear uma crise que dure dias .É importante dividir tarefas que exijam esforço físico, não tentando “compensar” pelos dias perdidos .Também é importante não tentar esgotar as tarefas de uma só vez. Por exemplo, a tendência de uma dona-de-casa é sempre passar toda a roupa, para depois dobrá-la e guardá-la. Seria menos cansativo passar um pouco da roupa, depois guardar um pouco e voltar a passar. Isto faz variar os grupos musculares que estão sendo usados, e permite um melhor equilíbrio da fadiga muscular. Sempre se deve fazer alongamentos antes de qualquer atividade física, tanto no trabalho como no lazer. Se há a chance de haver mais dor por realizar certa atividade, usar medicações analgésicas antes desta atividade pode ser extremamente útil.

O estresse emocional não causa a FM, mas com certeza pode piorar os sintomas. Deve-se sempre manter atento se um quadro de depressão ou ansiedade estão surgindo. As condições do tempo também podem piorar os sintomas. Como isto não pode ser mudado, é interessante um aumento nas medicações para o paciente que sente que está mais sensível. Estas questões devem sempre ser discutidas com o médico.
Da mesma maneira, se a paciente sente piora durante o período pré-menstrual, ajustes podem ser feitos neste período em relação à medicação para dor, para o sono e para relaxamento muscular. Existem hoje medicações específicas para o período pré-menstrual, que devem ser usadas por todo o mês. Estas opções devem ser discutidas na consulta médica.
Outras dicas durante as crises: descansar bastante, usar formas de calor para aliviar a dor – banhos quentes (principalmente de banheira, se possível), compressas quentes e bolsas de água quente. Uma soneca de 30 minutos após um banho quente pode ser uma boa estratégia para aliviar a dor. Massagens, alongamentos também são boas opções, mas alguns pacientes podem não tolerá-los durante a crise. A acupuntura é uma boa opção para um alívio da dor nas crises. Procure fazer atividades que lhe dêem prazer, para ajudar no relaxamento. Respire fundo e devagar – a crise leva a um aumento no número de respirações (hiperventilação), o que pode levar a sintomas como tontura e amortecimentos, aumentando o estresse.
Procure pensar coisas positivas, repetindo-as com freqüência –

“esta crise não durará para sempre” , “eu posso lidar com isso”, “eu farei isto ou aquilo para me sentir melhor”.

Estes pensamentos lhe darão força para passar por este período difícil. Algumas pessoas gostam de escrever, e escrever sobre a FM, a crise e o que você está fazendo para ameniza-la já se provou muito eficiente para o sentimento de auto-estima do paciente.

 

Dor no corpo, sempre é Fibromialgia?

Quando um paciente vem à consulta no reumatologista por dores no corpo todo, a fibromialgia é sempre lembrada, pela sua alta prevalência na população. Porém, existem outras causas de dor muscular generalizada, algumas graves, que devem ser afastadas.
Não se deve imaginar, entretanto, que a fibromialgia só pode ser confirmada depois de todos os exames laboratoriais e de imagem vierem negativos. Na grande maioria das vezes, a anamenese (entrevista clínica) e o exame físico são suficientes para afastar outros diagnósticos. Mas que outros problemas seriam esses?

A fibromialgia por definição é um reumatismo não-articular, isto é, não afeta as juntas. Com um exame físico, pode-se já estabelecer a presença de artrite e definir um diagnóstico para a causa desta artrite, sendo a mais comum a artrite reumatóide.
Em pacientes mais idosos, a polimialgia reumática deve ser afastada. Esta é uma inflamação dos ombros e quadris, com pouco acometimento das articulações superficiais, que cursa com intensa rigidez matinal e provas de inflamação positivas nos exames de sangue. A polimiosite difere-se da polimialgia por ser uma doença muscular, com fraqueza progressiva da musculatura ao redor dos ombros e quadris, com dificuldade progressiva do paciente alcançar coisas acima da cabeça, levantar de cadeiras ou subir escadas. Essas são alterações facilmente detectadas pelo exame físico, e podem ser comprovadas por testes mais específicos.

A dor generalizada também alerta para a possibilidade de lesões ósseas difusas, que são mais graves. Estas lesões podem ser benignas ou malignas. O hiperparatireoidismo é uma doença em que há um excesso de produção do hormônio da glândula paratireóide, que por sua vez leva a lesões ósseas e aumento do cálcio no sangue; a deficiência de vitamina D é comum e cada vez mais reconhecida como uma causa de dor óssea e muscular. A vitamina D é considerada hoje um hormônio, com função importante no metabolismo do osso. Pacientes idosos, que não se expõe estão sob especial risco.
Nas causas malignas, destacam-se o mieloma múltiplo e as metástases ósseas. Estes diagnósticos graves não são difíceis de serem feitos, mas exigem atenção do médico para sintomas como emagrecimento progressivo, dor noturna, história de câncer no passado, especialmente em pacientes acima de 60 anos.

 

Memória e fibromialgia

Aproximadamente uma de cada quatro pessoas com fibromialgia (FM) queixa-se de problemas com a memória e com a concentração. Exemplos deste problema incluem entrar num quarto ou noutro cômodo da casa e não se lembrar do que tinha que fazer, dificuldade para lembrar de palavras para finalizar uma frase e esquecer nomes de pessoas. Problemas de leitura e de concentração em outras tarefas também podem aparecer.
Na verdade, estes problemas não acontecem só em pacientes com FM, mas em qualquer pessoa com dor crônica. Para o cérebro, a dor é sempre um sinal de que alguma coisa grave está acontecendo no corpo, como uma inflamação ou um tumor. Mesmo este não sendo o caso da fibromialgia, o cérebro continua dando atenção à dor, e outras funções cerebrais, especialmente a concentração, ficam prejudicadas. A nossa memória funciona como um gravador – para lembrar-nos de alguma coisa, esta precisa primeiro estar “gravada” no nosso cérebro, para ser lembrada algum tempo depois. Na maioria das pessoas com fibromialgia, não existe um problema de lembrar alguma coisa, mas sim desta informação não ter sido bem guardada.

O problema está em um baixo nível de concentração, e os fatos e nomes não são bem “gravados” no cérebro. Se eles não estão bem guardados, eles não podem ser lembrados depois. Vale a pena reforçar o conceito: na maioria das vezes em que o paciente não lembra um fato é porque este não foi bem guardado na primeira vez. Isso mostra que a memória está intacta, mas a concentração está deficiente por causa da dor crônica. Algumas medidas podem ser úteis para compensar esta diminuição de concentração:

1) Estabeleça rotinas : desde a hora de levantar da cama, tente manter a mesma rotina, por exemplo – lavar-se, tomar café, tomar remédios, etc... Sempre manter a mesma ordem ajuda a manter a memória e a concentração mais “descansadas” e assim que elas sejam necessárias para outras coisas, elas estarão mais preparadas.

2) Guarde suas coisas no mesmo lugar: chaves, remédios, costuras, etc...

3) Escreva recados para você mesma(O) : quando o cansaço e a dor chegam, fica difícil contar com a memória, especialmente para detalhes. O fato de escrever não deixa a memória “preguiçosa”; pelo contrário, ajuda a gravar melhor fatos e palavras. Escreva tudo, desde o que tem que ser conversado com o(a) esposo(a) naquela noite, até o vencimento de contas.

4) Quando achar que alguma informação deve ser guardada, pare outras coisas que estiver fazendo e concentre-se naquilo. Repita uma, duas, três vezes frases que queira lembrar-se depois (faça em voz alta). Uma informação tem que ficar “passeando” na sua cabeça por pelo menos 15 segundos para ser bem guardada.

5) Seja paciente. Não reaja com tristeza ou nervosismo se alguma coisa for esquecida. Isto só irá piorar o problema. Lembre-se, você não está ficando louco ou com Alzheimer.

6) Divida com os outros suas dificuldades. Use senso de humor. Se você conseguir brincar sobre sua dificuldade em achar a palavra certa ou lembrar detalhes, os outros também ficarão relaxados e cobrarão menos de você.

7) Por fim, o tratamento dos outros problemas da fibromialgia, como a dor, as alterações do sono e depressão, também ajudará a melhorar os problemas de concentração e memória.

 

Fibromialgia em crianças

A síndrome da fibromialgia também pode acontecer em crianças. Existem algumas características especiais da fibromialgia nesta população, que diferem dos adultos com a mesma condição.
Em primeiro lugar, demora-se mais para fazer o diagnóstico de fibromialgia em crianças. Muitos médicos pediatras ainda não estão familiarizados com este problema, e acabam ofertando outros diagnósticos para os pacientes, tais como: artrite reumatóide juvenil, dores de crescimento, problemas psicológicos.
Nas crianças, a maior prevalência da fibromialgia no sexo feminino não se observa – meninos e meninas são afetados na mesma proporção. A idade de aparecimento mais comum é na puberdade e na adolescência.
Assim como nos adultos, existe uma maior freqüência de fibromialgia em pessoas com articulações mais flexíveis do que o habitual, o que chamamos de hipermobilidade. Nas crianças esta condição é mais comum, e pode gerar tanto dor articular como dor muscular, e uma maior predisposição para entorses e luxações.
As crianças mais novas com fibromialgia não sabem expressar seus sintomas tão bem quanto pacientes adultos. Elas tornam-se mais quietas, não querem brincar, dormem mal e começam a ter dificuldades na escola, tanto nas aulas de educação física quanto em sala de aula. Pode demorar um pouco para os pais perceberem que o motivo desses problemas é a presença de dores musculares.
Feito o diagnóstico, o tratamento das crianças com fibromialgia não difere muito do que nos adultos. Deve-se dar grande ênfase na prática de atividade física, o uso de analgésicos leves e de relaxantes musculares à noite. A criança ou adolescente deve participar do tratamento e conhecer na medida do seu entendimento, qual é o seu problema. Sempre que houver uma queixa, deve-se perguntar o que o paciente acha que será a melhor medida a ser tomada. Isso cria um sentimento de responsabilidade sobre o próprio corpo, que auxilia no tratamento.
Geralmente crianças e adolescentes com fibromialgia evoluem bem, e muitos ficam sem sintomas depois de algum tempo de tratamento. O reconhecimento da fibromialgia em crianças é importante, pois outras condições, diagnosticadas erradamente, podem levar a tratamentos inadequados e até mesmo arriscados.

Fonte: www.fibromialgia.com.br

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